Domingo, 22 de Março de 2009

Desculpa O'Neill (2009)

Manhã de nevoeiro, dia soalheiro

diz o nosso povo e diz muito bem

pego no meu O'Neill como parceiro

os dois e absolutamente mais ninguém

 

saio de minha casa ao final da manhã

vou passear em busca de tranquilidade

a semana é dura, preciso da mente sã

caminho pela capital cheio de vontade

 

almoço na famosa rua do Arsenal

rua com lugar na nossa história

houve Abril que podia correr mal

esse episódio tenho-o na memória

 

após o almoço continuo o passeio

pela Lisboa mais castiça e bairrista

não sou puto novo, conheço o meio

caminho com segurança, calculista

 

paro no jardim do Príncipe Real

sento-me para poder descansar

folheio o meu parceiro genial

poesia de O'Neill para pensar

 

o destino não quis o meu sossego

a pretexto de um cigarro fui interrompido

levanto a cabeça e vejo um "labrego"

mais "carocho" só estando entupido

 

negado que foi o cigarro que pediu

logo o valente puxou a navalha

então pensei "Ora onde já se viu?"

"A destreza e estupidez deste canalha"

 

pouso o O'Neill no banco do jardim

olho-o nos olhos e esboço um sorriso

"Tens a certeza que isso é para mim?"

mas o "carocho" não tinha juízo

 

avançou cambaleante na minha direcção

navalha em riste como um espadachim

ainda me tocou ao de leve, de raspão

mas demasiado lento para mim

 

um puto com metade da minha idade

a tentar fazer-se passar por valente

fiz com que perdesse noção da realidade

ainda deve estar com o corpo dormente

 

ainda lhe disse para deixar de ser herói

porque a coisa podia correr-lhe mal

ele não acreditou, fiz-lhe um dói-dói

se tiver juízo ainda passa no hospital

 

estamos desgraçados ó minha gente

com esta criminalidade importada

polícia não há, é presença inexistente

e o cidadão defende-se à porrada

 

o infeliz também teve muito azar

com o maluco que hoje encontrou

talvez na próxima pare para pensar

já que desta vez ele não pensou

 

o "carocho" é símbolo da degradação

que já conheço há muito, de longa data

só não sabia da minha real condição

morei 17 anos num bairro e lata

 

ainda agora ele começou a aprender

o que custa a vida de pobre desgraçado

já eu há muito tento, em vão, esquecer

na universidade da vida fui diplomado

 

assim terminou mais um passeio

desculpa O'Neill por não te ler

acabei agora o banho, olha o asseio

e sobre este dia tinha de escrever

 

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publicado por manu às 21:14
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8 comentários:
De Utopia das Palavras a 22 de Março de 2009 às 21:55
Fogooooooooooooo!!!

Vinha comentar o teu post anterior (comentei) e deparo-me com esta história. Pois bem, tiveste sorte, porque a tua coragem em enfrentar o "puto" enfrentarias de certeza outro de igual condição física da tua e a coisa podia ser mais perigosa!
Muito triste sentir que em lugar nenhum nos podemos sentir livres...abstrairmo-nos... voarmos por aí. A realidade é bem diferente não é?

Fico contente de saber que estás bem, e deixa lá que o O`Neill não leva a mal por não ter sido lido no Principe Real!!!

beijo maior

De manu a 22 de Março de 2009 às 22:09
Olá Ausenda! É triste mas é a realidade que temos. Estes putos estando sob o efeito das drogas são imprevisíveis. Este acabou por ter azar porque eu tinha ainda umas más energias para descarregar e ele teve a infeliz ideia de se oferecer para tal. Mas tudo acabou bem e eu apenas precisava de por esta experiência por escrito. Obrigado pela preocupação. Beijo grande.
De Breizh da Viken a 22 de Março de 2009 às 22:14
Bem...imagino
ah grande herói... e tudo por causa de um cigarro!


bj

breizh

também já tive situações dessas...mas com franganotes de 10 a 12 anos

De manu a 22 de Março de 2009 às 22:18
Olá Breizh! Herói não sou nem me atrevo a tal. Eu costumo dizer que mais vale um cobarde vivo do que um herói morto. Este devia ter uns vinte e poucos mas estava tão pedrado que não percebeu o significado do sorriso que esboçei ao puxar-me a navalha. O que importa é que tudo acabou bem e bola para a frente. Beijos
De Breizh da Viken a 22 de Março de 2009 às 22:42
Assim é que é...
bj


breizh
De manu a 22 de Março de 2009 às 22:49
De inoutyou a 22 de Março de 2009 às 22:59

Amigo Emanuel,

Parece que conseguiu se safar bem. Olhe que é preciso alguma coragem, principalmente para alguém de navalha. Mas é para ver no país que nos estamos a transformar...

Abraço
Alex
De manu a 22 de Março de 2009 às 23:09
Amigo Alex! É uma realidade que existe há muito tempo e às quais as nossas autoridades sempre fecham os olhos. O grande problema é que esta criminalidade que era exclusiva das periferias agora entrou em força nas cidades e em Lisboa as histórias vão-se acumulando. Aquilo a que o amigo chama coragem mais não é do que experiência. Quem como eu, nasceu e foi criado num bairro degradado, sabe avaliar correctamente estas situações, embora não deixe de ser perigoso, pois pode sempre acontecer um imprevisto. Mas tudo correu bem e a vida continua. Abraço.

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